terça-feira, 19 de agosto de 2008

Sera' que levo jeito?


No fim de semana alem de blogar, cuidar da casa e dar atencao pro meu marido, ainda arranjei tempo para terminhar um conto que estava escrevendo. Como ja falei, meu desejo e ser escritora, e como prometi, posto hoje o conto ja terminado. Agradeco comentarios.

A Gorda

Gorda! Baleia! Rolha de poço! La ia de maria-chiquinha e merendeira bem arrumadinha que era, aplicada, estudiosa, notas medias, uma ou outra vermelha. Na saída da escola ou no recreio a mesma cantilena: - Mobydick, Gorda, Chupeta de baleia. E quase sempre chegava em casa chorando, a mãe so dizia não traga desaforo para casa, quero nem saber. Meiga que era defender-se não sabia. So chorar, desmanchar de raiva a maria-chiquinha. Nada sobrava na merendeira e ainda ia escondida atacar a geladeira.

No ginásio a mesma coisa so que não mais chorava mas se remoia de raiva. Nessa época a chamavam de rolha apenas, ou chupeta, o que ela odiava ainda mais. Não se arrumava nem se pintava como as outras. Pra que? Se perguntava. As tres amigas se revezando com namorados, agarros, bilhetinhos, amassos. E ela, a vela. Gostavam dela, inofensiva, prestativa. Nesses anos não era de comer muito, so o normal, so nao recusava um quindim, adorava queijo parmesao, mas vivia botando peso. Era roliça por natureza, mãe, primas, o irmão, todos magros, ossudos, e ela, a gorda. A tia rabugenta dizia “Ja namorou? Gorda nao casa. Que homem gosta?” Um sabado, nada a fazer, romantica, (fotonovela lia todas), a tia esqueceu uma revista Readers Digest que sempre carregava. Folheou e leu “Ser Gordo não é Doença”. As portas da esperança se abriram, sonhos podem ser! purpurinas no ar! E aprendeu pouco a pouco a enterrar a culpa.

Dezessete anos. Dinheiro economizado gastava tudo na Marisa. Arranjou trabalho de vendedora e ja estava estudando no magisterio. Rouge, batom, esmaltes, saia curta e justa. Que aconteceu com a rolha? pensavam. Ela foi mudando, experimentando aos poucos a delícia de ser o que é.

Ao espelho levantava os peitos fartos, orgulhosa. Grandes mas proporcionais, rosto bonito sempre teve, olhos pretos, aplicou luzes e tudo, o belo sorriso de uma gorda feliz ilumina. Bota vestido de decote os peitos quase pulando fora, e aquela bunda. Não podia por que? Tava nem aí. Com o tempo ficou mais conversadora, simpatica, brincalhona. Enquanto as amigas perplexas ainda tentavam entender os rapazes ja a cantavam quando saiam juntas.

As fotonovelas a ensinaram o valor do verdadeiro amor, as armadilhas do destino, o perigo da inveja, a destruição de uma calunia, as artimanhas da sedução. As amigas continuavam trocando de namorado como trocam de roupa e ela exercitando a espera, a paciência nos dias em que o corpo pulsava ela resistia, mesmo sozinha. Descobriu a sensualidade que irradiava com sua simpatia, energia, bom-humor vinda da felicidade se ser, mesmo gorda.

Um dia, novo funcionario na mecânica de carros do bairro, la na esquina. Sujo de graxa, belo, forte, alto, tão confiante com as ferramentas, montando e desmontando os motores, os músculos do braço, costas, pernas se mostrando. No calor, ele sentava na calcada pra almoçar, desabotoava o macacão. Solteiro, descobriram. As garotas em polvorosa. Andavam quadras a mais, mil desculpas e volteios so para passar em frente a mecanica e espiar, a esperança de serem notadas. Funcionario novo, olhos so para a repimboca da parafuseta.

Um dia ela indo pro trabalho (a rua da mecanica ja era caminho certo) vestido colante, tecido fino, um calor de matar ja de manhã, os cabelos ainda molhados escorrendo nas costas, aquele perfume boticario, ela notou: “ele olhou”. Atravessou a rua, continuou andando sem dúvidas até virar a esquina, resistindo a dar mais uma espiadinha…”mas será?” E assim foi de olhares, dúvidas e incertezas por semanas até que um dia… seu caderno caiu no chão, ou o tenis desamarrou, ou numa manobra ele teve de parar para ela passar, algo foi que eles se falaram, charme. Noutro dia um picolé na padaria, esbarrão (que calor), o cinema, outro chicabon, ele logo comprou um fusca, quando as amigas tiveram forças para ficarem passadas, a gorda ja namorava em casa, de mãos dadas, em poucos meses ja estavam de noivado marcado, indignadas, dois pombinhos no envelope, os convites para o casamento ja pululavam na vizinhança, inveja, amigas que eram organizaram chá-de-panela onde entre brincadeiras ainda souberam do dote dele, Uau!

E la estavam na saída da igreja jogando arroz nos recém-casados, desejos de felicidade! (Quando será o meu dia?) Ele um gentleman, lindo de terno preto e flor na lapela. Vestido de noiva bem apertado na cintura, ela pediu, não quero saber de fofocas. Casa pequena ali mesmo em Água Santa. Grávida no segundo mes de casamento, mais felizes podiam? Ela linda, orgulhosa, a barriga se mostrando mesmo la pro sexto mes.  Ele todo carinho e atençãoA filha uma gracinha, reconchuda. As outras também se casariam a seu tempo.

Na época do segundo fillho (menino a cara do pai) ja estava na faculdade, segundo ano de direito. Não queria ser mecanico toda vida, falava. Formado passou em concurso publico, salario melhor. Comprou um Chevete.  Alugaram outra casa no Andaraí, as amigas visitaram, adoraram o apartamento, tem varanda. E a fruteira que deram? Quebrou na mudanca. Até chorei, disse sincera. Aniversário da filha, festa no Tijuca Tenis Clube, eram socios agora com desconto em folha que ela trabalhava na recepção meio periodo. Professora não queria ser, não da tempo de cuidar dos filhos. Aulas de frances a tarde.

Sempre foi de jogar na sorte, a rabugenta dizia se voce nao esta dentro voce esta fora. Sempre os tais numeros um dia, acertou. Não muito mas o suficiente pra uma boa entrada num apartamento maior na Tijuca. Pessoal metido la, disseram, e exibidos, em Agua todo mundo é amigo. Fez lipo sob protestos dele gosto de voce fofinha, e ela prometeu, so um pouquinho. Visitas sem avisar foram escasseando pra evitar o constrangimento de esperar os dois sairem do quarto mesmo no meio da tarde.

Que felicidade! A história dessa gorda nao tem virada triste, quem se interessa mais em continuar lendo sobre alguem para quem tudo na vida da certo como num roteiro de cinema? Entao melhor aproveitar que eles estao indo pra Europa (viagem dos sonhos) deixar essa gorda pra la e parar por aqui.

Mas e se ele, so imaginando… na viagem a Paris…, tomando um café no hotel enquanto ela dormia (dor de cabeca bem) e se ele conhecesse Dominique?… Au revoir!

Nenhum comentário: